quinta-feira, 12 de abril de 2018

cegueira

Adriano,
perfeita a comparação da pasmaceira que vivemos de nossos tristes trópicos por conta de uma cegueira coletiva que atravessamos, no caso provocada pelo FIO da navalha

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

contibuicao do monge CCarlos

As escolhas da vida!

- Mestre, como faço para me tornar um sábio?
- Boas escolhas.
- Mas como fazer boas escolhas?
- Experiência – diz o mestre.
- E como adquirir experiência, mestre?
- Más escolhas.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Breve introdução ao atoísmo filosófico

Breve introdução ao atoísmo filosófico

Por falta do que fazer, criei e sistematizei o Atoísmo, extraordinário sistema filosófico- existencial, que adota a vagabundagem como fim supremo da vida humana. Não fui nada original, sei muito bem, na teoria ou na prática. Milênios antes de mim já os cínicos gregos pregavam sistema parecido. Diógenes, o maior deles, dormia num tonel, vivia nu, transava em público, comia verduras que colhia nos caminhos e nunca fez nada, exceto pensar. Por falar nisso, o apelido cínico vem de "kynós", cão em grego, bicho que também adora transar em público. Diógenes gostava, acima de tudo, de ficar deitado ao sol nos dias frios e à sombra nos dias quentes.

Não queria nada e nada esperava além de que o deixassem em paz com seus paradoxos, seus piolhos e seu agudo senso de humor. É um de meus gurus, exceto quanto aos piolhos. Prosseguindo, a síntese do Atoísmo cabe numa frase, como quase todos os grandes sistemas sociais, políticos, econômicos e religiosos antigos ou modernos. O Socialismo se apóia na máxima "a cada um segundo suas necessidades, de cada um de acordo com suas possibilidades", ou coisa parecida.

Nunca funcionou, é claro, já que o ser humano não é flor que se cheire. O Cristianismo adota como ideal "amai-vos uns aos outros", que também não funciona, é lógico, já que o ser humano desconhece o significado do verbo "amar", embora conheça profundamente vários outros verbos em "ar", como roubar, matar, traficar, sonegar, escamotear, prevaricar etc. Mais objetivo, o Atoísmo prega, pura e simplesmente, "nunca faça hoje o que você pode deixar para amanhã". Supimpa, não é mesmo?

DA TEORIA À PRÁTICA
Na verdade, os fundamentos do Atoísmo ainda não foram escritos, já que tenho adiado a tarefa, por princípios estritamente atoísticos, vai beirando uns 30 ou 40 anos. Tanto tempo assim? Pois é. Como é voz do povo e voz de Deus, as grandes idéias nascem em mentes jovens, muito antes que os cérebros criem crostas de picumã e os neurônios sofram curtoscircuitos irreparáveis.

Foi em minha juventude, portanto, que criei essa maravilhosa filosofia, assim com Einstein revolucionou a física aos 25 anos e Darwin, dos 21 aos 25, viajou pelo mundo coletando os dados que lhe proporcionariam, décadas mais tarde, os pilares da teoria da evolução. Nós, os grandes pensadores, temos pressa em pensar, não necessariamente em sistematizar. Ainda mais o Atoísmo. Em resumo, como a teoria não está pronta, e pelo visto rolarão décadas até que se erga sólida e altaneira como um senador, passemos à prática, ainda que pré-teórica.

CACHORRO LAMBENDO FERIDA
Voltemos aos cães de Diógenes, digo, dos cínicos. Já repararam no que fazem (ou não fazem) os cães, de qualquer raça, procedência ou idade? Acordam antes do sol, naquele lusco-fusco em que galhos de árvores simulam criaturas perigosas e, como de corajosos não têm nada, aprontam pavoroso berreiro, de que participam todos os canídeos das redondezas. Cumprido o dever matutino, enroscam-se em torno de si mesmos e voltam a roncar. Roncam que roncam até que chega o primeiro rango.

À vista da gororoba, sacodem freneticamente o rabo e avançam na cumbuca, devorando tudo o que houver de comestível. Ficou limpa a cumbuca? Ficou. Pois então é hora de enroscar e roncar. No que fazem muito bem, e é assim que levam o dia: comendo, latindo e roncando. Ah, sim, e também mastigando pulgas. Conhece pulga? Pois é. São aqueles bichos gordinhos e amarronzados, cheios de perninhas, vencedores de todas as provas de salto em todas as olimpíadas e concursos atléticos.

É, aqueles mesmos que têm uma ferroada ou fincada ou mordida - alguma coisa do tipo - tão infernal que dá vontade de pegar um deles e - crau! - acertar uma dentada das boas, de pura vingança. Isso quando não existem perebas. Existindo perebas, logo após o café da manhã fecham os olhos, esticam as patas e se põem a lamber as benditas, como se fossem bombons das mais distintas procedências. E ficam nisso o dia inteirinho, com alegres pausas dedicadas a refeições robustas, pois nunca se cansam de comer. E de roncar.

FILÓSOFO LAMBENDO IDÉIAS
Na teoria prática, é assim também que funciona o Atoísmo, exceto quanto às pulgas e aos latidos, pois, até onde sabemos, filósofos não mastigam pulgas nem latem, mesmo que sejam cínicos, preferindo pensar, de preferência em público. Mas - perguntará você, intrometido como sempre - de que vivem esses atoístas, que de tanto nada fazerem nada devem ter pra comer, beber ou vestir? Das doações de seus discípulos, é lógico.

Como é sabido e ressabido, filósofos, pastores, políticos e funcionários públicos pouco ou nada fazem, vivendo de orar, parolar, arrebanhar e, no caso dos últimos, também de telefonar incansavelmente a parentes e amigos até que a fila dobre as esquinas da vida e eles possam, enfim, dar o expediente por encerrado, batendo a porta na cara dos velhinhos de 90 anos que, gaguejando e tremendo, mais tremendo que gaguejando, tentam inutilmente esclarecer que estão na fila desde as quatro da madrugada e já são seis da tarde.

Inutilmente. Portanto, é da contribuição dos discípulos que vivemos nós, atoístas. Aliás, viveremos, já que, por falta de tempo de seu eminente fundador, que sou eu mesmo, a prática atoísta ainda não entrou nos eixos - mas há muito tempo, quem sabe amanhã?

A CONSISTÊNCIA DO ATOÍSMO
Se é de contribuições espontâneas que viveremos na prática, é preciso então abandonar a teoria, convocando todo e qualquer candidato a atoísta para que compareça sem mais tardança à sede do Comitê Central Atoísta e lá deixe sua contribuição em cheque, dinheiro vivo, galinha viva ou morta, queijos e outros donativos. Infelizmente, e como não poderia deixar de ser, sabendo-se que a nova filosofia anda em fase de formulação e muito longe da prática, a sede do Comitê Central Atoísta ainda não existe. Não existindo sede, torna-se difícil arrecadar contribuições.

Sem estas, é impossível passar da teoria à prática. Mas tudo bem. O sol está gostoso e as pulgas coçam. Ótimo! Por enquanto tais regalias bastam e sobram. No futuro teremos mais, muito mais.




O escritor SEBASTIÃO NUNES escreve no Magazine aos domingos.

pesquisa atualizada

descobri atraves do São Google outras ocorrencias da filosofia, ocorrencia essas que talvez valessse a pena explorar




ou

http://atoismo.blogspot.com/search?updated-min=2007-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&updated-max=2008-01-01T00%3A00%3A00-08%3A00&max-results=8

ou

http://z004.ig.com.br/ig/56/04/237060/blig/tubaranhao/2005_09.html

Manifesto do Surrealismo

Manifesto do Surrealismo

(André Breton - 1924)

Tamanha é a crença na vida, no que a vida tem de mais precário, bem entendido, a vida real, que afinal esta crença se perde. O homem, esse sonhador definitivo, cada dia mais desgostoso com seu destino, a custo repara nos objetos de seu uso habitual, e que lhe vieram por sua displicência, ou quase sempre por seu esforço, pois ele aceitou trabalhar, ou pelo menos, não lhe repugnou tomar sua decisão ( o que ele chama decisão! ) . Bem modesto é agora o seu quinhão: sabe as mulheres que possuiu, as ridículas aventuras em que se meteu; sua riqueza ou sua pobreza para ele não valem nada, quanto a isso, continua recém-nascido, e quanto à aprovação de sua consciência moral, admito que lhe é indiferente. SE conservar alguma lucidez, não poderá senão recordar-se de sua infância, que lhe parecerá repleta de encantos, por mais massacrada que tenha sido com o desvelo dos ensinantes. Aí, a ausência de qualquer rigorismo conhecido lhe dá a perspectiva de levar diversas vidas ao mesmo tempo; ele se agarra a essa ilusão; só quer conhecer a facilidade momentânea, extrema, de todas as coisas. Todas as manhãs, crianças saem de casa sem inquietação. Está tudo perto, as piores condições materiais são excelentes. Os bosques são claros ou escuros, nunca se vai dormir.

Mas é verdade que não se pode ir tão longe, não é uma questão de distância apenas. Acumulam-se as ameaças, desiste-se, abandona-se uma parte da posição a conquistar. Esta imaginação que não admitia limites, agora só se lhe permite atuar segundo as leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir por muito tempo esse papel inferior, e quando chega ao vigésimo ano prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz.

Procure ele mais tarde, daqui e dali, refazer-se por sentir que pouco a pouco lhe faltam razões para viver, incapaz como ficou de enfrentar uma situação excepcional, como seja o amor, ele muito dificilmente o conseguirá. É que ele doravante pertence, de corpo e alma, a uma necessidade prática imperativa, que não permite ser desconsiderada. Faltará amplidão a seus gostos, envergadura a suas idéias. De tudo que lhe acontece e pode lhe acontecer, ele só vai reter o que for ligação deste evento com uma porção de eventos parecidos, nos quais não toma parte, eventos perdidos. Que digo, ele fará sua avaliação em relação a um desses acontecimentos, menos aflitivo que os outros, em suas conseqüências. Ele não descobrirá aí, sob pretexto algum, sua salvação.

Imaginação querida, o que sobretudo amo em ti é não perdoares.

Só o que me exalta ainda é a única palavra, liberdade. Eu a considero apropriada para manter, indefinidamente, o velho fanatismo humano. Atende, sem dúvida, à minha única aspiração legítima. Entre tantos infortúnios por nós herdados, deve-se admitir que a maior liberdade de espírito nos foi concedida. Devemos cuidar de não fazer mau uso dela. Reduzir a imaginação à servidão, fosse mesmo o caso de ganhar o que vulgarmente se chama a felicidade, é rejeitar o que haja, no fundo de si, de suprema justiça. Só a imaginação me dá contas do que pode ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar ( como se fosse possível enganar-se mais ainda ). Onde começa ela a ficar nociva, e onde se detém a confiança do espírito? Para o espírito, a possibilidade de errar não é, antes, a contingência do bem?

Fica a loucura. “a loucura que é encarcerada”, como já se disse bem. Essa ou a outra.. Todos sabem, com efeito, que os loucos não devem sua internação senão a um reduzido número de atos legalmente repreensíveis, e que, não houvesse estes atos, sua liberdade ( o que se vê de sua liberdade ) não poderia ser ameaçada. Que eles sejam, numa certa medida, vítimas de sua imaginação, concordo com isso, no sentido de que ela os impele à inobservância de certas regras, fora das quais o gênero se sente visado, o que cada um é pago para saber. Mas a profunda indiferença de que dão provas em relação às críticas que lhe fazemos, até mesmo quanto aos castigos que lhes são impostos, permite supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginação e apreciam seu delírio o bastante para suportar que só para eles seja válido. E, de fato, alucinações, ilusões, etc. são fonte de gozo nada desprezível. A mais bem ordenada sensualidade encontra aí sua parte, e eu sei que passaria muitas noites a amansar essa mão bonita nas últimas páginas do livro. A Inteligência de Taine, se dedica a singulares malefícios. As confidências dos loucos, passaria minha vida a provoca-las. São pessoas de escrupulosa honestidade, cuja inocência só tem a minha como igual. Foi preciso Colombo partir com loucos para descobrir a América. E vejam como essa loucura cresceu, e durou.



Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação.

O processo da atitude realista deve ser instruído, após o processo da atitude materialista. Esta, aliás, mais poética que a precedente, implica da parte do homem um orgulho sem dúvida monstruoso, mas não uma nova e mais completa deposição. Convém nela ver, antes de tudo, uma feliz reação contra algumas tendências derrisórias do espiritualismo. Enfim, ela não é incompatível com uma certa elevação de pensamento.

Ao contrário, a atitude realista, inspirada no positivismo, de São Tomás a Anatole France, parece-me hostil a todo impulso de liberação intelectual e moral. Tenho-lhe horror, por ser feita de mediocridade, ódio e insípida presunção. É ela a geradora hoje em dia desses livros ridículos, dessas peças insultuosas. Fortifica-se incessantemente nos jornais , e põe em xeque a ciência, a arte, ao aplicar-se em bajular a opinião nos seus critérios mais baixos; a clareza vizinha da tolice, a vida dos cães. Ressente-se com isso a atividade dos melhores espíritos; a lei do menor esforço afinal se impõe a eles como aos outros. Conseqüência divertida deste estado de coisas, em literatura, é a abundância dos romances. Cada um contribui com sua pequena “observação”. Por necessidade de depuração o sr. Paul Valéry propunha recentemente fazer antologia do maior número possível de começos de romances cuja insensatez ele muito esperava. Os mais famosos autores seriam chamados a participar. Tal idéia dignificava também Paul Valéry, que, não há muito, a propósito dos romances, me garantia que, ele, sempre se recusaria a escrever: “A marquesa saiu às cinco horas.” Mas cumpriu ele a sua palavra?

Se o escrito de informação pura e simples de que a frase precipitada é exemplo, tem emprego corrente nos romances certamente é por não ir longe a ambição dos autores. O caráter circunstancial, inutilmente particular, de cada notação sua, me faz pensar que estão se divertindo, eles, à minha custa. Não me poupam nenhuma hesitação do personagem: será louro, como se chama, vamos sair juntos no verão? Outras tantas perguntas resolvidas decisivamente, ao acaso; só me restou o poder discricionário de fechar o livro, o que não deixo de fazer, ainda perto da primeira página. E as descrições! Nada se compara ao seu vazio; são superposições de imagens de catálogo, o autor as toma cada vez mais sem cerimônia, aproveita para me empurrar seus cartões postais, procura fazer-me concordar com os lugares-comuns:

Os precursores...

A primeira manifestação do ATOISMO que eu tenho noticia foi de um arquiteto carioca, morador de Ipanema, que defendia ferozmente (dentro dos limites impostos pela crença) o direito universal do Homem de permanecer à toa.... sem fazer absolutamente nada em prol do progresso da humanidade

Prometo procurar, sem muito esforço, em meus registros, somente por uma questão de justiça, para restaurar a verdade histórica, o nome do nosso filosofo e precursor

Talvez devesse começar os trabalhos, opps, com uma singela homenagem ao querido amigo GUARA RODRIGUES, o maior estrangulador de louras da historia do cinema brasileiro, que teve toda sua longa existência dedicada integralmente ao ATOISMO, apenas atrapalhado, esporadicamente, por sua carreira cinematográfica.....